domingo, 1 de junho de 2008

II

Zaratustra desceu sozinho das montanhas sem encontrar ninguém. Ao chegar aos bosques deparou-se-lhe de repente um velho de cabelos brancos que saíra da sua santa cabana para procurar raízes na selva. E o velho falou a Zaratustra desta maneira:

“Este viandante não me é desconhecido: passou por aqui há anos. Chamava-se Zaratustra, mas mudou.

Nesse tempo levava as suas cinzas para a montanha. Quererá levar hoje o seu fogo para os vales? Não terá medo do castigo que se reserva aos incendiários?

Sim; reconheço Zaratustra. O seu olhar, porém, e a sua boca não revelam nenhum enfado. Parece que se dirige para aqui como um bailarino!

Zaratustra mudou, Zaratustra tornou-se menino, Zaratustra está acordado. Que vais fazer agora entre os que dormem?

Como no mar vivias, no isolamento, e o mar te levava. Desgraçado! Queres saltar em terra? Desgraçado! Queres tornar a arrastar tu mesmo o teu corpo?”

Zaratustra respondeu: “Amo os homens”.

“Pois por que — disse o santo — vim eu para a solidão? Não foi por amar demasiadamente os homens?

Agora, amo a Deus; não amo os homens.

O homem é, para mim, coisa sobremaneira incompleta. O amor pelo homem matar-me-ia”.

Zaratustra respondeu: “Falei de amor! Trago uma dádiva aos homens”.

“Nada lhes dês — disse o santo. — Pelo contrário, tira-lhes qualquer coisa e eles logo te ajudarão a levá-la. Nada lhes convirá melhor, de que quanto a ti te convenha.

E se queres dar não lhes dês mais do que uma esmola, e ainda assim espera que tá peçam”.

“Não — respondeu Zaratustra; — eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso”.

O santo pôs-se a rir de Zaratustra e falou assim: “Então vê lá como te arranjas para te aceitarem os tesouros. Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que tenhamos força para dar.

As nossas passadas soam solitariamente demais nas ruas. E, ao ouvi-las perguntam assim como de noite, quando, deitados nas suas camas, ouvem passar um homem muito antes do alvorecer: Aonde irá o ladrão?

Não vás para os homens! Fica no bosque!

Prefere à deles a companhia dos animais! Por que não queres ser como eu, urso entre os ursos, ave entre as aves?”.

“E que faz o santo no bosque?” — perguntou Zaratustra.

O santo respondeu: “Faço cânticos e canto-os, e quando faço cânticos rio, choro e murmuro.

Assim louvo a Deus.

Com cânticos, lágrimas, risos e murmúrios louvo ao Deus que é meu Deus. Mas, deixa ver: que presente nos trazes?”.

Ao ouvir estas palavras, Zaratustra cumprimentou o santo e disse-lhe: “Que teria eu para vos dar? O que tens a fazer é deixar-me caminhar, correndo, para vos não tirar coisa nenhuma”.

E assim se separaram um do outro, o velho e o homem, rindo como riem duas criaturas.

Quando, porém, Zaratustra se viu só, falou assim, ao seu coração: “Será possível que este santo ancião ainda não ouvisse no seu bosque que Deus já morreu?”


Assim falava Zaratustra

PRIMEIRA PARTE

PREÂMBULO DE ZARATUSTRA

I

Aos trinta anos apartou-se Zaratustra da sua pátria e do lago da sua pátria, e foi-se até a montanha. Durante dez anos gozou por lá do seu espírito e da sua soledade sem se cansar. Variaram, porém, os seus sentimentos, e uma manhã, erguendo-se com a aurora, pôs-se em frente do sol e falou-lhe deste modo:

“Grande astro! Que seria da tua felicidade se te faltassem aqueles a quem iluminas? Faz dez anos que te abeiras da minha caverna, e, sem mim, sem a minha águia e a minha serpente, haver-te-ias cansado da tua luz e deste caminho.

Nós, porém, esperávamos-te todas as manhãs, tomávamos-te o supérfluo e bemdizíamos-te.

Pois bem: já estou tão enfastiado da minha sabedoria, como a abelha que acumulasse demasiado mel. Necessito mãos que se estendam para mim.

Quisera dar e repartir até que os sábios tornassem a gozar da sua loucura e os pobres da sua riqueza.

Por isso devo descer às profundidades, como tu pela noite, astro exuberante de riqueza quando transpões o mar para levar a tua luz ao mundo inferior.

Eu devo descer, como tu, segundo dizem os homens a quem me quero dirigir.

Abençoa-me, pois, olho afável, que podes ver sem inveja até uma felicidade demasiado grande!

Abençoa a taça que quer transbordar, para que dela manem as douradas águas, levando a todos os lábios o reflexo da tua alegria!

Olha! Esta taça quer de novo esvaziar-se, e Zaratustra quer tornar a ser homem”.

Assim principiou o caso de Zaratustra.

domingo, 25 de maio de 2008

Já se aproxima a madrugada

Já se aproxima a madrugada e o sono não me vence.Talvez tenha bebido um café a mais.
Acho que não me apetece ir deitar porque vem aí mais uma segunda-feira e como diria o Bob Geldof « ...so tell me why i don´t like mondays..».
Depois passa.É só mesmo ali as primeiras horas é que a dormencia é maior.
Acho que cada vez me custa mais « o solitário andar por entre as gentes» de que falava o poeta.Sou talvez o principal culpado porque « dou-me com toda a gente,mas não me dou a ninguém».Sou muito fundamentalista pelo meu espaço,e até um pouco misantropo.
Agora apeteceu-me utilizar esta palavra que quer dizer anti-social,não por qualquer tipo de pretensão mas porque me dá gozo saboreá-la.
Eu sou daquelas pessoas que gosta de saborear as palavras.
Por vezes gostava de poder parar o tempo e permanecer numa atitude contemplativa horas e dias a fio,digerindo comodamente os engasgos da vida para que depois quando o relógio avançasse novamente a pudesse encarar com uma postura mais confiante e menos improvisada.
Ainda bem que o não posso fazer porque no fundo seria uma cobardia.
E eu ás vezes até me posso acobardar mas detesto sentir-me um cobarde.
Quem diria que haveria de chegar uma altura em que para os homens seria mais fácil comunicar para uma máquina do que com o seu semelhante.
Nunca como nesta altura a expressão « arranja uma conversa só para ti» veio tão a propósito.
E de monólogo em monólogo lá vamos caminhando em direcção á madrugada escura.
Com os ollhos postos no horizonte esperando pela aurora do nosso contentamento.